Escrever é uma cosia difícil.
Uma pessoa qualquer pode se satisfazer com um conjunto despretencioso de palavras encaixadas,mas eu não...Eu estava procurando aquela palavra.
A máquina de escrever me encarava como aquela menina que descobre que depois de doze latinhas de cerveja você não é mais tão viril quanto imaginava.
Um poquinho de pena ...um poquinho de decepção...a filha da puta sorri complacente enquanto você tenta se justificar...
Dei um gole na latinah de cerveja que agora já estava quente e me levantei.
Eu olhei pela janela ora vislumbrando os carros correndo sob uma chuva fina ora encarando a mim mesmo, as fundas cavidades oculares ,a barba por fazer ,um cigarro dependurado.Eu andava com cigarros apagados na boca desde que decidi parar de fumar.
Me imaginei tragando deliciosamente uma nuvem de substâncias nocivas...
Soltei a fumaça imaginaria embaçando a janela.
Fui limpando o vidro com as pontas dos dedos ao passo que aparecia diante dos meus olhos toda inspiração que havia me fugido nos últimos meses personificada numa voluptuosa diva coberta de seda vermelha..
.eu imagino que fosse seda mas talvez fosse qualquer outra coisa.
Ela olhava desconfiada para os lados.
Voltei a máquina de escrever.
"a noite ..."
"a noite paira"
"paira"?isso existe?...
e de qualquer modo ,como diabos isso me ajudaria a chegar nos estimados noventa e cinco centimetros de pernas estonteantes parcamente cobertos pela seda (ou talvez cetim) vermelho?
Essa era uma pergunta difícil e do ponto de vista de um recente ex-fumante eu definitivametne precisava de um cigarro...e fósforos.
Não eu não tinha fosforos.Eu joguei eles fora quando decidi parar de fumar porque me parecia menos cruel ou definitivo que faze-lo com os próprios cigarros.
Num corte cinematográfico lá estava eu percorrendo as Laranjeiras em busca de fósforos.
E aí eu a vi.
Novamente a seda contra o corpo me atraindo.
-oi, você não teria um fósforo?
-desculpa eu parei de fumar.
-certo...você tem nome?
-Oi?
-qual o seu nome?
-Nara.
-belo nome...mas porque você está aqui...na chuva...esperando alguém?
-mais ou menos...
-sei...
-você não mora naquele pre´dio ali?
-moro , moro sim...
-eu te vi daqui.Na janela fumando um cigarro apagado.
-ah é?
-você faz um tipo misterioso...
Eu devia ter desconfiado de alguma coisa quando ela disse isso.
-ah é?
Mas eu simplesmente sorri sem jeito de modo que em alguns vinte minutos ela entrava pela porta da minha casa desprendendo o coque numa cascata de cabelos dourados,e em seguida eu entrava por entre as suas pernas transpirando extasiado com o seu gemido agudo e contido.
Meu olhar estava vidrado e ela agora uivava como um animal selvagem e a mim assim como a um animal selvagem não foram necessários mais do que cinco minutos para que eu me abatesse sobre ela decepcionada.
Ela se limpou com um sorriso.A porra do sorriso complacente...mas não era aquele mesmo sorriso. Então eu entendi tudo.
Segundos antes de ela me informar eu já havia entendido tudo.
-São cinquenta reais meu amor.
Eu peguei minha carteira e tirei os últimos cinquenta reais
-obrigado- ela sorriu se levantando e indo até a porta.
Eu sentei à beira da cama observando o vazio que invadia minha carteira.
E então eu suspirei com um pouquinho de pena...
um pouquinho de decepção...
Mas foi apenas uma semana depois quando meu urologista diagnosticou "é gonorreia meu filho"que eu sorri com o sorriso complacente peculiar à quem acaba de perceber que está de fato fodido.
sábado, 17 de abril de 2010
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